Há 100 anos falecia Guiomar Corrêa Marques da Silva, a sócia número 1 do Vasco
Segunda-feira, 28/09/2026 - 14:03
Há 100 anos (28/09/2026) falecia Guiomar Corrêa Marques da Silva, a sócia número 1 do Vasco. O pesquisador Jorge Medeiros fala sobre a história de Guiomar e sua importância para o Vasco.

Quando falamos das mulheres na história do Vasco, normalmente o nome de Dulce Rosalina surge de imediato. No entanto, este mês marca exatamente o centenário de falecimento (1926–2026) de uma pioneira cuja trajetória foi resgatada pela pesquisa histórica. Por que decidir investigar especificamente a história de Guiomar Corrêa Marques da Silva?

A pesquisa nasceu de uma inquietação historiográfica. Existe uma tendência natural de concentrar a narrativa da presença feminina no Vasco a partir da figura icônica de Dulce Rosalina. Mas, ao cruzar arquivos das primeiras décadas do século XX, percebemos que a participação das mulheres na vida vascaína é muito mais antiga, profunda e complexa. Guiomar Marques, ao lado de contemporâneas como Josepha Pereira, nos ajuda a deslocar o olhar da história esportiva tradicional — focada apenas em heróis e placares — para o que chamamos de história social do esporte. Ela personifica uma geração que construiu a identidade e os vínculos comunitários do Vasco quando o clube ainda se consolidava.

O ano de 1926 é o marco final da vida dela e o ponto de partida do seu reconhecimento na imprensa. O que os documentos da época revelam sobre o status formal que ela alcançou no clube?

ela foi reconhecida e chancelada institucionalmente como a primeira sócia remida. Em uma sociedade da década de 1920, onde o espaço público feminino era rigidamente restrito, ostentar esse título formal em um clube de massas era um dado extraordinário. O jornal O Paiz, inclusive, a destacou textualmente como "verdadeiramente estimada pelos vascaínos".

A pesquisa de campo mostra que a atuação dela ia muito além das fronteiras de São Cristóvão ou das regatas na Baía de Guanabara. Como era a participação dela nas famosas excursões e viagens do clube?

Esse é um dos pontos mais ricos da documentação, que quebra o mito de que as mulheres da época eram meras espectadoras passivas. Guiomar estava inserida no cotidiano político e social do clube. Descobrimos registros de que na histórica excursão do Vasco a Juiz de Fora, em 1924, o banquete oficial teve a mesa principal presidida textualmente por ela. Em 1925, a revista Mundo Desportivo, na seção "Vida Social", cobriu sua presença na comitiva que viajou a São Paulo para o emblemático amistoso contra o Palestra Itália. Ou seja, ela viajava, representava a instituição e articulava a diplomacia do clube em um momento de plena expansão institucional do futebol vascaíno.

Você menciona que a imprensa da época chegou a usar uma metáfora muito forte para descrever a residência dela na Rua Barão de Mesquita, na Tijuca. Qual era o papel dessa casa para o ecossistema do Vasco?

O jornal O Paiz, ao cobrir o seu funeral, usou uma expressão fascinante: descreveu a casa de Guiomar como uma espécie de "segunda sede" dos jovens vascaínos. Claro que precisamos entender isso como uma caracterização jornalística e de afeto, e não como uma subsede oficial. Mas ela revela o poder da rede de sociabilidade que Guiomar e seu marido, o dinâmico dirigente Francisco Marques da Silva, construíram. Ali circulavam atletas, associados e torcedores de origens sociais diversas. Era um espaço de acolhimento e aglutinação que ajudou a moldar a mística da "família vascaína" antes mesmo da inauguração de São Januário.

Um dado marcante no seu levantamento é o tamanho da comoção pública no Rio de Janeiro por ocasião da morte de Guiomar, em 1926. O que as fontes nos dizem sobre o seu funeral?

O periódico O Beira-Mar registrou que o cortejo fúnebre de Guiomar contou com mais de cem automóveis acompanhando o féretro, além de uma profusão de coroas de flores enviadas por particulares e por diversas outras agremiações esportivas e culturais da cidade. Para a realidade urbana e automobilística do Rio de Janeiro de 1926, um cortejo dessa magnitude era algo impressionante, reservado a figuras de altíssima relevância pública. O Vasco não perdeu apenas a esposa de um dirigente; a cidade e a comunidade luso-brasileira sentiram o impacto do desaparecimento de uma de suas grandes animadoras sociais.

Uma das grandes descobertas da sua pesquisa é que a história de Guiomar no Vasco não se encerrou em 1926. Quase duas décadas depois, o clube promoveu um resgate material do nome dela. E quatro anos mais tarde, no emblemático Cinquentenário do Vasco em 1948, essa memória ganha contornos definitivos através de grandes cronistas da nossa história, não é?

Esse é o momento em que a experiência vivida por ela começa a se transformar formalmente em memória histórica institucional. Em 1944, durante a gestão do presidente Manoel Ferreira de Castro Filho, o Vasco organizou uma grande solenidade para o batismo e inauguração de novas embarcações da sua flotilha. Uma das novas peças de competição recebeu oficialmente o nome de "Guiomar Marques da Silva". Em 1948, vinte e dois anos após a morte de Guiomar, o Vasco parou para celebrar suas bodas de ouro, e os grandes guardiões da memória do clube fizeram questão de evocá-la. O jornalista Álvaro Nascimento, na sua famosa coluna "Coisas Que Só Acontecem ao Vasco..." no Jornal dos Sports, resgatou a importância dela e de Francisco. Mas a definição mais arrebatadora veio de José da Silva Rocha, o Rochinha, uma das maiores autoridades da nossa memória. Em sua matéria comemorativa, ele cravou uma manchete que resume perfeitamente a tese da nossa pesquisa: "Tinha um presidente, mas ‘Dona Guiomar' era o coração do club."

Para encerrarmos, Jorge: ao celebrarmos este centenário de partida (1926–2026), qual a lição que a trajetória de Guiomar Marques deixa para o Vasco do futuro?

A lição de que o Vasco nunca foi construído apenas dentro das quatro linhas ou por canetadas de atas oficiais. Entender Guiomar Marques como o "coração do clube" nos anos 1920 é fazer justiça histórica. Resgatar sua memória no centenário de 2026 não diminui o gigantismo de Dulce Rosalina; pelo contrário, mostra que quando Dulce assumiu a liderança das arquibancadas décadas depois, ela estava caminhando sobre um solo de pioneirismo feminino que mulheres como Guiomar já haviam ajudado a pavimentar com extrema altivez, paixão e pioneirismo institucional.



Fonte: Divulgação (texto), Revista da Semana (fotos)